terça-feira, 29 de maio de 2012

SERÁ QUE É IMPORTANTE? >> Clara Braga

Às vezes eu fico com a impressão de que as pessoas prestam atenção nas coisas erradas. Pode ser que seja eu também, que eu esteja prestando atenção em coisas que não deveria enquanto coisas muito mais importantes acontecem, mas não sei, ainda tenho essa minha impressão.

Hoje em dia tem tido muitas marchas, reivindicações, apelos e etc. pelos direitos da mulher! Acho mais do que justo, tem que ir pra rua fazer barulho mesmo, a mulher não pode ser feita de objeto, as pessoas não podem justificar o abuso sexual contra a mulher por causa da roupa que ela usa que é provocante, ninguém pode espancar uma mulher (nem qualquer outra pessoa, de preferência) e etc.

Concordo com todas as colocações que vem sendo feitas e assino embaixo. Porém, enquanto nós estamos lutando por tudo isso, a rede globo está colocando em suas novelas e seriados várias mulheres que são feitas de gato e sapato por vários homens e tudo bem, fica por isso mesmo.

Em uma novela o cara tem três esposas e fica conciliando o tempo que passa com cada uma dando a desculpa de que tem que fazer muitas viagens a trabalho. E o mais absurdo, duas das esposas são amigas, choram as mágoas uma para a outra e, apesar de morrerem de vontade de conhecerem os maridos uma das outras, nunca descobrem que são casadas com o mesmo cara, será que só eu acho isso surreal?

Depois, tanto nessa novela quanto em outros programas, aparecem várias mulheres super conformadas com o fato de que são traídas por seus maridos, afinal “qual o homem que nunca deu uma escapadinha?”. Olha, não sei de que planeta saíram as pessoas que escrevem esses textos para a globo, mas se quiserem a gente pode marcar um encontro e eu apresento vários homens que eu conheço que nunca deram uma escapadinha!

O que me preocupa é o fato de saber que a globo dita moda, dita padrões, decide qual o assunto da vez que vai estar na boca do povo e, exatamente por isso, daqui a pouco as pessoas vão achar que é normal o cara trair a esposa , namorada, ficante e etc. sem maiores problemas, e a besta da mulher tem que ficar lá só olhando, afinal, é normal!

Claro que existem mulheres que querem conviver numa boa com isso, que realmente não acham isso problemático, e tem até mulheres que também fazem isso, mas chegar ao ponto de tornar isso padrão da forma como a televisão tem feito, colocando a mulher como a coitada que tem que aceitar o marido assim, é um pouco demais, não?

E enquanto essas coisas rolam de forma nada sutil, mas a gente vai absorvendo sem grandes problemas, a globo decidiu que o assunto da vez seria a Xuxa, Rainha dos Baixinhos, declarando que sofria abuso até os 13 anos de idade, e agora, enquanto várias outras coisas acontecem no mundo, as pessoas ficam discutindo se de fato a declaração é verdade ou não! Será que isso é tão importante assim ao ponto de por mais de uma semana ser o assunto da vez?

domingo, 27 de maio de 2012

MANIFESTO >> Whisner Fraga


Estudávamos, eu e meus irmãos, no período da manhã, o que equivale a dizer que devíamos acordar às seis da manhã ou pouco menos, o que era muito penoso, porque todos nós gostávamos (e acho que ainda gostamos) de dormir. Depois, brigávamos entre nós para ver quem buscaria o pão e quem faria o café e o chá. Geralmente os mais fracos perdiam – eu ia até a padaria e minha irmã preparava o leite e companhia. Com o tempo, meu irmão, mais parrudo do que nós outros, percebeu que podia dormir até mais tarde, já que, para se encaminhar para a escola, só devia vestir o uniforme, ajuntar os livros e se deliciar com o café da manhã preparado por nós.

A sorte é que o Polivalente, escola que frequentávamos, era perto de casa. Uns quinze minutos a pé ou cinco minutos de bicicleta. Minha irmã, mimada como era, cursava um colégio chique, que ficava mais distante de nosso bairro, o que não representava problema nenhum, já que tinha carona todos os dias. A Escola Estadual Antônio de Souza Martins era disputada, todos queriam estudar lá nos anos 1980. Tínhamos aula de Artes, Educação para o lar, Práticas agrícolas, era um negócio inconcebível em um país que escapava de uma ditadura militar. Então havia um vestibular, que era tão concorrido quanto os quase extintos vestibulares para ingresso nas boas universidades públicas de nossa pátria.

Enquanto escrevo, acabo por me lembrar de uma história interessante. Ao lerem o ocorrido, por favor, não me tomem como arrogante, porque não sou de jeito nenhum. Não chego ao cúmulo de ter algum complexo de inferioridade, mas também não cultivo qualquer sentimento de superioridade com relação ao que quer que seja. O fato é que prestei o tal vestibulinho para ingressar no colégio e aguardava ansioso a resposta. Se fosse reprovado, teria de ir para uma escola inferior e, pior, longe de casa. Na manhã do dia acertado para divulgarem o resultado, uma amiga de minha mãe liga para ela: não tinha visto meu nome na lista. Desesperada, minha família corre para a 16, pois o resultado estava afixado nos muros de entrada do Polivalente. Claro, todo mundo começou a procurar lá no fim da lista de uns quatrocentos nomes e veio rumo ao início. Entre os primeiros colocados estava lá: Whisner Fraga Mamede. Eu tinha tudo para ter uma baixa auto-estima, não?

Estive recentemente em Ituiutaba e, como sempre faço, visitei o Polivalente. Mais uma vez voltei triste para casa. Não condeno, de maneira alguma, os gestores atuais da escola, nem tampouco seus professores, que, estou certo, fazem o possível. Vi o capim invadindo o que já foi uma pista de corrida, vi as quadras e mesmo o campo, sem manutenção, abandonados, vi parte do prédio fechada, pois não tem mais condições de uso. O edifício de hoje é somente uma sombra do que foi há trinta anos. Conheço a realidade da educação, pois também sou professor e posso dizer que os diretores, os docentes não têm culpa. Sabemos que a educação no Brasil nunca foi prioridade e se há o mito que havia mais dinheiro para esta área anos 1970, é porque poucas pessoas iam para a escola, o que barateava todo o processo. O orçamento não conseguiu crescer na mesma proporção que o número de alunos que ingressam no sistema. O que podemos fazer? Deixar de enxergar a educação pública, gratuita e de qualidade como um favor e começar a percebê-la como um direito de todos. Assim que isso acontecer, podemos ir à luta.

sábado, 26 de maio de 2012

POR AMOR OU POR DINHEIRO
>> Maria Rachel Oliveira

Outro dia, aliás li no site da BBC uma matéria sobre os resultados de uma pesquisa realizada por cientistas americanos sobre o que atrai mais as mulheres num homem, se aparência ou dinheiro. O estudo, que foi publicado no Journal of Personality and Social Psychology (Jornal de Psicologia Social e Personalidade), conclui que, no final das contas, a aparência é o que conta mais para ambos os sexos na hora de escolher o parceiro amoroso. Balela. Discordo enormemente. Pra começar, fizeram a pergunta errada quando elaboraram o tal estudo. Rico ou pobre realmente é secundário quando se trata de um encantamento que pode vir dum jeito de olhar, de uma certa gargalhada, ou até mesmo de uma falha nos dentes. Gosto é pessoalíssimo - e insondável, aliás.
Eu, por exemplo, já amei feios. Já amei duros. Já amei ricos e já amei bonitos (esses últimos quando não são narcisistas são ótimos, mas isso é exceção, o que não os torna tão bons partidos quanto aparentam à primeira vista). Porém, pães-duros jamais. Não tem nada mais deprimente do que um primeiro jantar em que a conta 'deu 32,50 pra você e 45,27 pra mim, porque eu tomei uma taça de vinho a mais'. Esse cara merece ser capado e seu instrumento oferecido em sacrifício aos pombos da Cinelândia. O que os homens não entendem é que as mulheres querem que eles paguem as contas. Isso mesmo. Pro inferno essa de igualdade de sexos, a gente quer ser paparicada. Ponto. A gente quer ser tratada como mulherzinha; sim senhores, t-o-d-a-s, talvez até principalmente as mais metidas a independentes!
Claro, existe uma diferença, uma enorme diferença entre a mulher que quer ser paparicada e a mulher que quer dar o golpe do baú e ficar de boreste enquanto o sujeito se esfalfa todo pra ela poder quedar-se a fazer nada. E é a falta total de percepção dessa sutil diferença o ponto em que as relações se lascam. Terminam trocando os pés pelas mãos e acabam parando nas mãos das dissimuladas, que fingem muito bem até ter o poder necessário para depená-los (ou vocês acham que aquela bunda dura delas e aqueles amigos 'personais' todos é porque elas trabalham seriamente feito umas cornas o dia inteiro?).
Eu já fui jantar em restaurante baratex e me senti uma rainha quando o sujeito se recusou terminantemente a dividir a conta. E era um duro, só pra constar. Impressionou muito mais do que aquele cara mauriceba que te leva num restaurante cheio de guéri-guéri e escolhe o vinho que vai tomar pelo menu da direita (pra quem não entendeu a piadinha, pelo lado em que estão os preços). As mulheres querem cavalheirismo. Sim, isso quer dizer: que vocês paguem SEMPRE a conta do restaurante e que abram a porta do carro pra gente, quando nos convidarem pra sair. Mas não se iludam que a ‘boa mulher’ vocês diagnosticam facilmente. No início, todas queremos a mesma moleza, mas, se vocês fizerem a opção certa, verão que, conforme ela for pegando intimidade, a ‘certa’ – a que só quer ser paparicada e não a sanguessuga – retribuirá na mesma moeda, e não economizará em surpresinhas (que podem ir desde pequenas ou grandes viagens a presentes pessoalíssimos e inesquecíveis) que certamente o farão muito feliz.
E sim, a gente acha muito justo dividir contas – quando isso implica em morar debaixo do mesmo teto e as tais ‘contas’ em questão são de telefone, luz e por aí vai. E achamos que o justo é que as contas sejam pagas na proporção da remuneração de cada um, independentemente de quem ganha mais.
O pai de uma amiga de uma amiga tem um conselho sábio. Nem para isso, nem para nada mais (como cultura e outras questões relevantes) a gente deve se envolver com alguém que não se enquadre na regra dos 30%. Não pode ser mais de 30% mais ou menos em qualquer quesito. Claro que há exceções, oras. Mas nesse caso, os dois olhos - e não um só - abertos, sîl vouz plaît.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

AS CARTAS NÂO MENTEM >> Zoraya Cesar

O rapaz magricela de boné com a aba virada para trás resmungava e ouvia funk ao mesmo tempo em que distribuía os folhetos, nos quais se lia:
Saiba o que vai acontecer e esteja preparado. Madame Cora não erra jamais.
Ao lado da imagem um pouco borrada da dita madame, um número de telefone e um grave aviso:
Só atendo com hora marcada. Não se desespere, procure Madame Cora.
Ele estava ansioso por distribuir todos os folhetos do dia e começar a longa jornada para casa. Se soubesse rezar ou acreditasse em qualquer coisa, rezaria para alguém procurar Madame Cora levando o folheto, para ele ganhar uma comissão. Minguada, mas comissão.  Duas moças passaram por ele e uma delas pegou o folheto, para espanto da outra, você acredita nessas bobagens? imagina, respondeu, só peguei por curiosidade, e seguiram seu caminho.
Jessica não pegou o folheto por curiosidade, mas por estar à beira do desespero, faria qualquer coisa para Anderson largar a mulher por ela, a amante apaixonada. Mas, depois de um ano de idas e vindas, a coisa estava desandando, ele já não parecia tão disposto a sair de casa, estava dividido, a mulher não estava bem de saúde, essas histórias mais antigas que o tempo. 
É disso que eu preciso, pensou Jessica, lendo o folheto. Eu sei que ele quer ficar comigo, aquela vaca deve estar fazendo macumba. Eu também posso fazer.
E se bem o pensou, melhor o fez (li essa expressão em algum lugar, adorei, finalmente pude usá-la). Ligou para Madame Cora, deu uma desculpa no banco onde trabalhava, pegou duas conduções e lá chegou. Uma adolescente vestida de branco, cabelos bem penteados, ofereceu-lhe um copo de água, fluidificada, disse, abre os canais de comunicação com o Além, Madame Cora já vai recebê-la. Jessica tomou, obediente, e a moça sinalizou para ela entrar por uma porta entreaberta nos fundos da sala.
Madame Cora aparentava jovens 50 anos, bem vestida como as ciganas de Hollywood, unhas sem esmalte, o rosto sem maquiagem. Olhou para Jessica e suspirou, mais uma boboca querendo o marido das outras. Mas vamos ao trabalho.
As cartas de Madame Cora foram cruéis. Disseram que Anderson não tinha intenção alguma de largar a mulher, e que Jessica deveria se afastar o quanto antes, pois ele não estava destinado para ela. Jessica insistiu, mas não tem nada que eu possa fazer para mudar isso? Não se deve mexer com o destino, falou Madame Cora, severa. Jessica chorou, mas eu gosto dele, tem de ter alguma coisa, eu quero, eu quero, eu quero.
Madame Cora pensou, amargurada, que essa gente não aprende, a maioria vem aqui assim, querendo mudar os rumos do plano Divino a seu bel prazer, em vez de aproveitar os avisos. No entanto, ela também não podia interferir no destino alheio. Se a cliente estava pedindo e ela, Madame Cora, sabia o que fazer... bem, cada um recebe o que pede. Ditou a Jessica uma série de instruções, nomes de ervas, fases da lua, invocações (não posso dizer quais, nem adianta pedir, Madame Cora me mata!) e um aviso de amigo: pense bem, minha filha, as cartas não mentem, você terá de agüentar as conseqüências até o efeito passar, não se deve mexer com o livre arbítrio dos outros, ele é casado.
Jessica saiu confiante. Não seria uma cartomante moralista que haveria de convencê-la a desistir do seu amor. Danem-se os avisos.
Ela fez tudo conforme o prescrito e, coincidentemente ou não – depende da crença de cada um -, o fato é que Anderson largou a mulher e mudou-se para a casa de Jessica.
Foi um desastre. Ele começou a beber e fazer cenas de ciúme absurdas, Jessica nunca mais teve sossego nem para sair com as amigas. Eram três infelizes, um por ter saído da casa que nunca pretendera largar; outro, por ter perdido o amante em troca de um marido ciumento e raivoso; e o terceiro por ter sido abandonado sem explicação.
Jessica continuava desesperada, não mais para ficar com Anderson, mas para se livrar dele. E também da ex-mulher, que vivia fazendo ameaças de mortes, surras, escândalos. Quanto tempo aquilo ia durar? Até passar, resignava-se a pobre Jessica, que ainda pensou em procurar Madame Cora, mas desistiu. Jamais voltaria a se misturar com magias e destinos novamente.
Do outro lado da cidade, Madame Cora tomava calmamente um chá da erva-doce colhida no seu quintal. As pessoas ou não acreditam em coisa alguma, ou acreditam apenas no que querem, o que dá no mesmo: em infortúnios, filosofava. E se preparou para atender o primeiro cliente da tarde, uma mulher que havia sido abandonada pelo marido por causa de uma bancariazinha muito da sirigaita.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A PESSOA SEM VIDA >> Fernanda Pinho




A pessoa sem vida é uma espécie não muito rara que conseguiu sobreviver à evolução graças à sua capacidade de camuflagem. Ela se camufla em meio a seres generosos e prestativos e se aproxima da presa demonstrando uma quase exagerada capacidade de ser útil.

A pessoa sem vida utiliza-se de vários mecanismos para deixar clara suas boas intenções. "Qualquer coisa que precisar, é só falar". "Eu vou com você". "Eu faço pra você". "Eu sei de um lugar ótimo". "Deixa comigo". São exemplos de frases recorrentes no vocabulário dessa espécie, sorrateiramente furtadas do linguajar dos bons de verdade.

A pessoa sem vida, porém, ao contrário dos bons, não estão apenas oferecendo ajuda ou sugestão. Trata-se de uma tentativa quase sempre ineficaz de impor o que, na verdade, ela quer. Ineficaz porque lhe falta a naturalidade dos bons. Diante de uma negativa da presa deixam escapar vestígios de sua verdadeira personalidade.

A pessoa sem vida, uma vez fora de controle, perde os escrúpulos, a educação e a compostura. A cara amarrada passa a ser seu uniforme. Coloca-se como uma pobre injustiçada, que "só queria ajudar". Lança mão do poder de camuflagem para fazer a vítima. Faz chantagem, drama, teatro. E pode até arrancar um sentimento de culpa da presa, caso esta ainda não tenha sido vacinada.

A pessoa sem vida pode manifestar esse seu desvio ainda na infância. São crianças que só ficam felizes se puderem usar a caixa de lápis de cor do coleguinha, ainda que a sua tenha mais cores. Tornam-se mulheres obcecadas pelo cabelo, o corpo e o marido da outra. Tornam-se homens que se metem em relacionamentos sem nunca oferecer à outra parte uma vida decente (afinal, ele não tem vida). Tornam-se colegas de trabalho sempre à espreita para te dar uma rasteira. Por que? Ora, porque querem seu lugar ou porque, simplesmente, sente-se mais confortável diante da infelicidade alheia.

A pessoa sem vida quer sugar sua energia. Seu ânimo. Sua força. Quer sugar a vida que ela mesma não tem.

Imagem: www.sxc.hu
www.viveremportunhol.blogspot.com

quarta-feira, 23 de maio de 2012

MORAR EM UM OLHAR >> Carla Dias >>

Acredito que perceber mais claramente as coisas difíceis que acontecem a nossa volta, às outras pessoas, também seja parte de uma fase, assim como a fase em que colecionamos objetos só para nos lembrarmos de alguém, daquele alguém que desejamos ter por perto durante as vinte e quatro horas do dia. Objetos que a pessoa tocou ou desejou, palavras que disse sem notar a mudança que inspirava em quem lhe queria mais do que qualquer benquerença seria capaz de traduzir.  Ou a fase dos suspiros longos, pesados de tão carregados de sentimentos que não sabemos identificar. A fase da indiferença, do desejo pungente de comprar a loja inteira ou de ficar fula da vida com a vida porque não consegue ser pontual nos compromissos, tampouco parar de exagerar no carboidrato. Fase de sonhar em ter carro, casa, em ficar suficientemente endinheirada para poder pagar todas as contas e sobrar dinheiro para o cinema, sem que o gasto desestabilize a contabilidade de apertos do mês. E até mesmo aquela em que a única – porém insistente – preocupação é com a própria saúde.

Fases são providenciais e a lua não me deixa mentir, vide o affair que mantém com as marés, apenas para citar o caso mais popular.

Há também a fase em que refletimos sobre as fases da vida, quando todas as outras, exceto a atual, a que nos faz mergulhar na experiência do questionamento, são vítimas de uma tirania que somos capazes de cometer somente com a gente mesmo. A fase de falar mal de si, o tempo todo, trazendo à tona todos os adjetivos com os quais, até então, fomos alvejados. E não falo dos apaixonados, dos sinceros, dos agradáveis e sim de todos aqueles adjetivos que aguaram aquela sementinha de mágoa fecundada em desalento.  Antes eu acreditava que essa fase era a da autopiedade em frenesi, só que não penso mais isso, porque passar por ela, sem danificar a alma de vez, pede uma coragem que a autopiedade não oferece.

A autopiedade estagna a alma e a veste em tormentos, mas essa fase, a do mergulho interno, ela despe a alma e a deixa em carne viva antes de oferecer a oportunidade do desvelar verdades, de reconhecer quais são as mentiras, para que possamos desacreditá-las e seguir adiante.

A fase da percepção sobre as dificuldades do outro nos deixa um tanto atormentados. Quando olhamos para o lado e nos deparamos com pessoas passando por situações que não seríamos capazes sequer de imaginar para as nossas vidas, em um exercício de tudo é possível, a sensação de impotência faz com que nos coloquemos no lugar delas, a empatia brota. E a impotência pode se tornar um sentimento regedor, procrastinador da nossa capacidade de perceber que sim, há certos acontecimentos que não podemos mudar e nem mesmo tornar menos cruéis para o outro ou para nós mesmos.

Então, vem a fase de debulhar a fé em entretons. Acreditamos que a moça do café irá nos tratar bem e oferecer o mais quentinho, porque necessitamos que o espírito seja aquecido. Temos fé que caminharemos pelas ruas e não seremos assaltados, nem mesmo que passaremos fome ou sede, que o mar jamais engolirá nossas casas. Temos fé que a nossa fé seja capaz de nos ajudar a lidar com tudo, mesmo sabendo que ninguém é capaz de lidar com tudo. Tudo é muito, demais da conta. Tudo é mais do que podemos suportar, seja de tragédias ou alegrias, não importa.

Tudo excede a nossa capacidade de ser.

E há essa fase... A das fases acontecidas, quando fazemos um balanço do que saboreamos com gosto e com desgosto, e melindramos o passado dolente, celebramos o passado das alegrias vitais que se estendem ao presente e ao futuro, como sermos filhos dos nossos pais, amantes dos nossos maridos e esposas, pais dos nossos filhos, amigos dos nossos amigos. A fase das varandas e horas sendo gastas na observação da paisagem, como se com essa contemplação déssemos de comer à alma. É quando Deus vem e vai da nossa percepção, quando em um minuto o saudamos e em outro nos aceitamos ateus, para logo mais entoarmos um mantra, tocar as contas do terço. A fase em que as fases se misturam e desejamos, silenciosamente, com o desejo impregnado da magia do sonho, morar em um olhar, aquele que consiga enxergar todas as camadas da nossa existência, tornando-nos capazes de lidar, com sabedoria, até mesmo com os avessos.

A fase da paz de espírito que só nos visita quando moramos em um olhar distraído das rendições e do medo. Um olhar desbravador de significados.

terça-feira, 22 de maio de 2012

CAROS PORTADORES DE CNH... >> Clara Braga

Dirigir é bom demais, não é verdade?

Me lembro bem da sensação boa que tive quando tirei minha carteira. Você se sente uma pessoa mais livre, não depende mais dos pais para te levarem nas festinhas, não fica em casa sem poder encontrar os amigos só porque seus pais já tinham programa e não vão poder te levar, e esses tipos de coisa.

Mas o tempo vai passando, a novidade passa a não ser tão nova assim, você começa a perceber que colocar gasolina no carro custa muito caro e que o trânsito das 18h é um inferno.

Ultimamente tenho percebido que com o passar do tempo as pessoas vão esquecendo também de serem cautelosas e esquecem das aulas de trânsito que tiveram, tanto práticas quanto teóricas. Parece que depois que o medo de ser reprovado na prova do Detran passa, as pessoas esquecem também uma coisa essencial chamada SETA!

Caros motoristas, por que é tão difícil dar seta?

Seta, para aqueles que não lembram ou que nunca souberam, é aquela alavanca que fica do lado esquerdo do volante, se você coloca a alavanca para cima significa que você vai virar para a direita, se você coloca para baixo significa que você vai virar para a esquerda, e assim todas as pessoas que estão no trânsito com você ficam sabendo para onde você vai e podem saber se devem parar para você passar ou se podem continuar seus caminhos sem risco de colisão.

Uma vez que você não dá a seta o risco de colisão é alto e, pode acreditar, a dor de cabeça que você vai ter para concertar o carro é muito maior do que a microforça que você precisa fazer para abaixar ou levantar a alavanca.

E para aqueles que por acaso ainda não sabem do que eu estou falando, eu estou falando daquela alavanca que quando vocês mexem nela um ícone começa a piscar no painel, e esse ícone, pasmem, tem o formato de uma seta e não é mera coincidência.

Então, caros motoristas, pensem bem nisso sempre que estiverem dirigindo um carro, seja ele seu ou não, pois a tecnologia pode ter avançado bastante, mas ainda não se chegou ao ponto de desenvolverem bolas de cristal para que os outros motoristas possam descobrir qual caminho você vai seguir.

Obrigada!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

REQUENTADO PARA MATINÊ
>> Albir José Inácio da Silva

Os sustos infligidos a Tânia, e as gargalhadas às suas custas, tinham sido insuficientes para cobrar a empáfia e a arrogância de primeira aluna, de queridinha dos pais, professores, parentes e vizinhos. Era preciso alguma coisa maior e definitiva para apagar aquele ar de superioridade que se escondia atrás da candura do sorriso e dos gestos.

Essas considerações eram feitas por Cleide, irmã de Tânia, para convencer o namorado Gilson a ajudá-la nessa empresa. Contavam com o que lhes parecia o pavor de Tânia por tudo que se referia ao sobrenatural. Contavam também com o grande motor das ações humanas, a inveja.

Não era gratuita a rejeição de Tânia às coisas do além. O que inicialmente foi identificado como medo acabou se revelando muito mais forte que isso. Tremia sim e se agitava diante de fenômenos estranhos, mas era mais que medo. De alguma maneira sentia que participava e até controlava essas coisas. Não foram poucas as vezes em que previu situações ou mudou com o pensamento acontecimentos que pareciam inevitáveis.

Descobriu que não tinha medo dos acontecimentos, tinha medo do envolvimento que acabava tendo com esses assuntos, mesmo sem querer. Fugia porque, presente, acabava interferindo. Felizmente conseguiu manter tudo isso fora do conhecimento das outras pessoas. E todos interpretavam sua reação como incontrolável pavor diante do sobrenatural.

Tânia jamais imaginaria aquelas maquinações de sua irmã. Gostava de todos, ajudava a todos nas tarefas, nos estudos e nos problemas pessoais. Encarava com bom-humor as brincadeiras destinadas a assustá-la, e depois as gozações decorrentes dessas brincadeiras. Nunca achou que passassem disso. Nunca passou por sua cabeça o rancor que secretamente, disfarçadamente sua irmã lhe dedicava.

A oportunidade surgiu numa noite sem lua que ameaçava chover. Tânia foi facilmente convencida da necessidade de ir à casa da avó morta há alguns meses, que permanecera fechada. A maioria das pessoas tinha medo de ir ali, mas por isso mesmo o lugar se revelou perfeito para o que Gilson e Cleide tinham em mente.

Deixada no meio da sala grande, enquanto o casal se dirigia aos quartos para procurar o que tinham ido buscar, Tânia olhou os móveis cobertos de poeira e teias de aranha. O cenário, aliado a algumas preparações da dupla, seria capaz de assombrar qualquer corajoso. Ainda mais, pensaram, uma medrosa como Tânia. Com auxílio de uma corda que chegava ao quarto onde Gilson estava, ele bateu a janela três vezes e arrastou caixas e correntes no forro da casa.

Coincidências acontecem – embora algumas pessoas não acreditem em coincidências - e a chuva que ameaçava cair desabou no exato momento em que a janela batia. O vento sacudiu as velhas e empoeiradas cortinas. Um casal de gatos em lua-de-mel no telhado contribuiu com gritos e gemidos aterradores.

Gilson e Cleide voltaram à sala prontos para a gargalhada. Gargalhada que, entretanto, fica presa na garganta. Tânia está calma. A janela que Gilson já parou de movimentar à distância continua batendo. As correntes continuam sendo arrastadas. Os gatos uivam como lobos. A situação já lhes fugiu do controle.

Tânia continua impassível, olhando a janela e o teto. No rosto, um quase sorriso. Levanta uma das mãos em direção à janela rebelde, que para de bater. O vento para de sacudir as cortinas. Já não se houve a chuva nem os trovões, e os raios param de ofuscar a vista. Talvez porque tivessem mesmo que parar em algum momento. Com a outra mão Tânia aponta o teto; as correntes no forro silenciam e os gatos cessam toda atividade amorosa, talvez por exaustão. Só então ela percebe que a irmã e o cunhado estão em choque.

- Não tenham medo, já passou!

Cleide sai da catatonia num choro convulso, olhos arregalados e o rosto banhado em lágrimas. Uma tremura sacode o corpo e a alma de Gilson. Ele também está molhado, mas não de lágrimas.