Era uma tarde de verão e, talvez por isso, havia tanta gente na piscina da academia. Quando a aula acabou, o vestiário ficou lotado de mulheres, a sua maioria muito jovem, lutando por um chuveiro à sombra.
Para guardar o meu lugar, tratei de pendurar a minha toalha no primeiro chuveiro que vi e, só aí, fui buscar meu shampoo e afins. Deixei a mochila da academia no armário, e voltei ao chuveiro reservado. Estava tudo normal na minha cabeça, um banho quentinho, um vestiário cheio e eu sempre meio atrasada pra alguma coisa que nem lembro o que era. Já estava do lado de fora, me secando, quando notei a pequena confusão. Uma menina, adolescente pra adulta, dando um piti porque tinha sumido a toalha dela. “Ai, que gente estressada”, eu pensei, secando o cabelo e assistindo à confusão. A menina falava sem parar, que tinha deixado a toalha dela — azul — pendurada no chuveiro, foi na sauna um minutinho e, quando voltou, não estava mais lá, a toalha, e ela precisava tomar banho, e como ia fazer, e que absurdo uma academia daquele nível com as toalhas desaparecendo, enfim. Ela tava tão nervosa que nem falava o plural direito. Era uma tal de “uma acadimia cara dessas e as toalha tudo desaparecendo?!” que eu quase fui lá, falar pra ela: “Amiga, uma acadimia cara dessas e tu não me sabe nem falar os plural direito, mulé?!”. Mas não falei nada, me secava pensando que absurdo aquele daquela nega guardar o chuveiro enquanto ficava na sauna, daqui a pouco iam vender os lugares, ia ter guardador de chuveiro igual vaga na rua, que horror, quem mandou ela se achar espertalhona? Bem feito, se ferrou.
Eu já estava quase no fim, secando entre os dedos dos pés, parcialmente vestida, quando, de repente, vi que num chuveiro vazio, tinha uma toalha pendurada, igualzinha à minha. Que engraçado — pensei. Olhei melhor e vi as letras “NO” bordadas na toalha. Cheguei mais perto, e lá estava bordado em letras grandes: BRUNO. A toalha que era igualzinha à minha tinha o nome do meu marido bordado nela, que coisa né? Eu ainda estava tranqüila quando resolvi ver a toalha melhor, de perto e, num susto, constatei que aquela toalha ali, seca, pendurada no chuveiro, era a minha mesmo. Mas, então, por que eu estava me secando com aquela outra toalha que, na verdade era... Azul? Ai, meu Jesus, não acreditei. Eu entrei no chuveiro que a menina tinha reservado pra ela, peguei a toalha dela e, o pior, me sequei todinha com esse trapo que eu nem sei onde foi que ela pôs... Tive um instante de pânico. Pensei em jogar dentro de um armário, fechar e sair correndo, rápido, rápido, eu tinha que ser rápida, já estava chegando no armário, quando... “ACHEI!” Que voz estridente tinha aquela mocinha. O vestiário todo parou e olhou para mim, que paralisei por segundos. Eu estava com a toalha dela na minha mão, mirada para o armário, um pé de havaiana, o outro vazio, a calça posta e a blusa só enfiada no pescoço, uma situação humilhante. Fui virando, assim, devagar, tentando ganhar algum tempo: “É... É... é sua?”, falei, sem jeito, baixo — quase sussurrando. Ela correu na minha direção e arrancou da minha mão, emendando: “Você usou, está molhada!” Mas o que essa guria tava pensando? Claro que usei ué, eu estava molhada, a toalha seca, no meu chuveiro, usei, oras... “Então, mas, então...’, eu repetia sem cessar, a voz engasgada que não saía, até que tive uma ideia e gritei: “Então cadê a MINHA toalha?!” Quando você não consegue se defender, acuse, é a lei dos fracos, mas eu era fracote mesmo ali e só queria me salvar daquele bando de abutres que me olhavam, fuzilando. Alguma estraga-prazer, sem noção, logo mostrou o chuveiro vazio:
— Não é aquela a sua?
— Aquela... Aquela está escrito Bruno! — eu falei, muito brava, porque achei que estava intimidando a multidão com a minha voz que resolvera ficar firme...
— E você não conhece nenhum Bruno?
— CONHEÇO! — gritei, vendo que estava tudo perdido. Eu estava perdida, socorro, como fazia pra sair dali, simplesmente?
Ficou um silêncio no lugar e eu, tentando abotoar a minha calça, fui andando com um chinelo só até o chuveiro vazio, peguei a toalha seca e entreguei para a menina, determinada:
— Então você usa essa, que tá seca, e leva também essa, molhada. E pronto, ué... — Falei como se fosse óbvio, como se eu fosse a chefa dela, de forma que ela não reagiu nem bem nem mal, ficou calada, segurando as duas toalhas nas mãos. Meu Deus, a dela era azul e a minha branca, como eu não notara?
Voltei ao meu lugar, achei a outra havaiana e liguei o secador, pra fazer algum barulho e disfarçar que as minhas mãos tremiam. Logo, outra menina ligou outro secador, outra outro, e a vida foi voltando ao normal. Eu suava em bicas tentando puxar a blusa pra baixo, no minuto seguinte.
Não calcei o tênis, não sequei direito o cabelo e estava pensando numa forma de pedir a minha toalha de volta quando notei que a menina, quase sádica, secava atrás da orelha bem com a letra U, do bordado feito com tanto carinho. “Credo, vai ver que ela estava toda encardida, eu é que não quero meu marido com a urucubaca dessa daí”, pensei saindo de lá, dando a toalha por perdida, e ainda pisando firme, pra manter minha frágil pose de má...
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
A TOALHA >> Kika Coutinho
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
NO ESCURO > Carla Dias >>
Ontem saí do trabalho e em vinte minutos estava em casa. Deu tempo de comer alguma coisa e assistir ao esquisito episódio de um dos meus seriados “quase” preferidos. Na minha lista de afazeres da noite de terça, espremiam-se vários isso e aquilo. À noite é quando coloco a minha vida pessoal em dia, o que inclui lavar, às vezes passar, limpar, ouvir música, ler, escrever... Sonhar... Fazer nada.
O apagão de ontem, que chegou a tantos estados se achando, mostrou-me como ando desarmada no quesito “fazer o quê?” Explico...
Depois de assistir ao tal seriado, minha lista dizia para eu começar a leitura de um dos livros sobre televisão e cinema que um amigo me emprestou. Também estou com dois filmes emprestados e um deles tinha de ser assistido, afinal, são livros e filmes emprestados e têm de ser devolvidos. Também precisava, nem que fosse por mais uma horinha, trabalhar em um site que estou construindo. Isso, de acordo com aquela listinha, me ajudaria a resolver pendências com direito a aprendizado e prazer.
Mas aconteceu o apagão... Primeiro a tevê apagou de vez, mas a lâmpada do corredor, que estava acesa, liberava uma luzinha tênue, deixando o lugar com cara de boate. Obviamente, recorri às velas, agradecendo por passar por essa escuridão em casa.
Claro que à luz de velas é possível se ler livros, isso sem contar que notebook tem bateria, e por algum tempo poderia trabalhar no site e até começar a assistir um dos filmes. Se quisesse música, o celular me proveria com estações de rádio ou o mp3 player com a seleção da vez.
Não fosse a correria e, assumo, a mania de deixar a mim pra depois, seria fácil ler o livro à luz de velas. Mas preciso de lentes novas para os óculos e ficar doze horas olhos nos olhos com a tela do computador já fragilizou minha capacidade de curtir essa versão romântica do livro antes de dormir à luz de velas. Senti uma falta da lâmpada acesa...
Sem conseguir ler um livro, resolvi trabalhar no site... E logo que liguei o computador fiquei brava comigo mesma por não ter carregado a bateria. Tinha só uns minutinhos de lambuja. Desliguei o dito e peguei o celular... Mas claro que não tinha rádio pra tocar pra mim. Então, recorri ao bom e velho mp3 player e descobri, de vez, que preciso prestar atenção no que não ando fazendo, pois a pilha já era.
Claro que, assim como a maioria de nós, vivo na certeza de que o que temos é para sempre. Mesmo tendo ciência de que essa é uma certeza provisória. Coloco nas mãos das facilidades – muito bem-vindas, obviamente – a maioria das ferramentas para meu lazer, para meu prazer e para as minhas necessidades.
Fiquei olhando pela janela, a correria de quem se sentia medroso debaixo de tanta escuridão. E sem ter o que fazer, fui me deitar, mas não contando com virar do lado e dormir, já que estou na fase da insônia. Fiquei olhando pro teto, pensando na vida, escutando os barulhos vindos do mercado em frente de casa, que continuava na ativa, pois lá tinha gerador.
Poetizei a existência de um gerador na minha área de serviço...
E cantarolei algumas músicas, parte delas, na verdade, porque raramente decoro letra... Ou poema, ou o que seja. Sou péssima decoradora: de casa e de textos diversos. Sentindo extremamente perdendo tempo com nada, reconquistei algumas lembranças, como a de quando minha avó contava histórias em dias de escuridão como esta que nos pregou uma peça numa terça-feira. Ou minha irmã cantando, na falta da tevê e do rádio. Tias contando histórias, ora verdadeiras e ora inventadas. E o chá mate acompanhado de bolinho doce de minha mãe, eles que quase sempre apareciam com as faltas da companhia de energia.
Continuo com a lista gritando o que devo fazer, mas tudo bem. Vou fazendo aos poucos, como dá e como posso, de acordo com o que sinto, e com o que a vida permite. Sempre à mercê da companhia de luz, de água, de internet, de telefonia, de ônibus...
www.carladias.com
Não dá pra deixar passar como se hoje fosse dia de apagão:

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terça-feira, 10 de novembro de 2009
O MAR E OS MINEIROS: A PROVA QUE FALTAVA
>> Felipe Peixoto Braga Netto
Não haverá estudo decente sobre a alma mineira que exclua o mar. O mar, paradoxalmente, é algo mineiro. É algo que participa da psicologia de Minas. Não, claro, no dia-a-dia dos mineiros. Mas nos desejos distantes traduzidos naquele leve desabafo: "ah, se eu estivesse..."
Achei engraçada uma publicidade que vi tempos atrás: belas fotos de lugares típicos de Belo Horizonte. Só que atrás de todos eles havia, para espanto e prazer, o mar. Foi uma vingança divertida contra a natureza.
O leitor já presenciou um encontro do mineiro com o mar? Eu já. Abandona-se tudo: roupas pelo caminho, carro na calçada, mãe no hospital. Tudo passa, na lógica sedenta de sal, a ser secundário e pouco importante frente às azuis possibilidades marítimas.
O mineiro, conformado porque é o jeito, agora deu para zombar do mar. Li numa camiseta, dia desses, a seguinte frase: "Eu tenho pena do mar porque ele não banha Minas". Eu também tenho. E também achei simpática a brincadeira. É uma forma de dizer: "Tudo bem, você não me quer, mas não sabe o que está perdendo"... Soube depois que a ideia é antiga, lá do século dezenove. Já em 1891, Otávio Ottoni dizia em canção: "O mar suspira porque está longe de Minas". Será? Será Minas, velho mar, a causa dos teus suspiros?
Mas é fato que o mineiro se trai ao falar do mar. Logo ele, tão reservado e contido, se desmancha em excessos, revela saudade. Paulo Mendes Campos diagnosticou: "O mineiro é um marujo ao qual retiraram o mar". Maldade com o marujo mineiro. Mas lhe fez bem. Essa combinação de montanhas fez desse povo uma coisa única, dignamente bela. Talvez por isso o poeta, certa vez, tenha dito: "O mar de Minas não é no mar. / O mar de Minas é no céu, / pro mundo olhar pra cima e navegar / sem nunca ter um porto onde chegar."
Por que falo disso hoje? Por isso...
Eu vi, eu vi no sábado passado, 7 de novembro de 2009. Sabe esses programas de televisão que passam no final de semana e em que a família sorteada ganha casa nova, prêmios incríveis, passa por uma transformação notável? Pois estava lá uma humilde família mineira. A mãe, pedreira, e os cinco filhos. Além de um tio dos meninos.
Resumo do diálogo:
— Vocês ganharam uma casa nova toda mobiliada!
Reação da família: — "Êêê (baixinho).
— Vocês ganharam um carro e duas motos!
Reação da família: — Êêê (baixinho).
— Vocês ganharam uma conta corrente com trinta mil reais.
Reação da família: — Êêê (baixinho).
— Vocês ganharam uma viagem para conhecer o mar!
Reação da família: pulos, gritos, explosão de lágrimas dramáticas e muitos abraços!
Juro que não é piada. Eu minto sim, mas só às vezes.
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domingo, 8 de novembro de 2009
SONHOS TORTOS >> Eduardo Loureiro Jr.
Só pra vocês terem uma ideia...
Essa semana sonhei que meu time ganhava de 3 a 0, três golaços, um deles do meio-de-campo. Até me espantei, porque não sou muito de sonhar imagens, sonho mais sentimentos. Se sonho beijando, não vejo a boca, apenas tenho a sensação do beijo. Então eu podia ter sonhado apenas com o sentimento bom de meu time ter ganho, de goleada, e com três golaços. Mas não, sonhei as imagens de cada gol, com direito a replay, e acordei animado, ansioso pra ver o resultado do jogo a que eu não assisti porque fui dormir cedo na noite anterior. Para meu desencanto, o portal de notícias indicava o placar de 1 a 1. Mas, para que eu não pensasse que meu sonho tinha sido inteiramente absurdo, a manchete completa era assim: "São Paulo lidera de novo: 1 a 1 com 3 expulsos". Eu sonhei três golaços enquanto a realidade apresentou três expulsões. Isso é que é sonhar torto!
Minha família, principalmente as mulheres, costumam ter sonhos premonitórios. Minha avó e uma de minhas tias já ganharam no jogo-do-bicho devido a sonhos. Minha mãe e uma de minhas irmãs morrem de medo dos sonhos ruins que têm, pois já viram alguns dos seus sonhos bons se realizarem. Comigo é o contrário. De tanto meus sonhos não acontecerem, desisti de pensar neles como premonitórios e passei a considerá-los como uma espécie de passeio ou viagem, que devo aproveitar enquanto acontecem, ao invés de ficar esperando que aconteçam no futuro. "Sonho é feito paixão, feito sorvete, só faz sentido no presente", tenho repetido pra mim mesmo.
Seria assim também com os sonhos acordados, as pequenas fantasias? Temos que aproveitar enquanto não somos interrompidos por alguém, por um telefonema? Não, assim como há pessoas que têm sonos dormidos premonitórios, também deve haver pessoas que sonham acordadas e veem seus sonhos se realizar. A questão é saber se são as mesmas pessoas, se quem sonha e realiza dormindo também sonha e realiza acordado. Quero saber se tenho salvação, se meus sonhos acordados têm mais chance que meus sonhos dormidos. Porque passo grande parte do meu dia sonhando, envolto em devaneios de coisas maravilhosas que me acontecem, de grandes oportunidades, de milagres mirabolantes, de reviravoltas incríveis do destino. E seria bom saber se devo apenas aproveitá-los enquanto duram em meus pensamentos ou se posso ter esperança de vivê-los.
Ou será que também são tortos meus sonhos de vigília? Se três golaços são três expulsões, no diálogo entre o inconsciente e a realidade, de que maneira se tornarão palpáveis o trabalho ideal, o amor ideal, a família ideal, a vida ideal? Serão todos os meus sonhos transformados — e transtornados — na dura realidade de quase todo mundo?
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CERTO OU ERRADO? >> Eduardo Loureiro Jr.
Dá pra entender por que somos conhecidos por homo sapiens? Quantos homens, e mulheres, realmente sábios você conhece?
Deveríamos nos chamar homo certus. Porque todos nós sempre achamos que estamos com a razão. Eu escrevendo essas ideias malucas, você lendo (se está gostando, acha certo; se não estiver gostando, acha certo estar criticando), o advogado, o médico, o professor... todo mundo se acha certo. A torcida do Flamengo, e a do Vasco também.
Até quem faz a coisa errada se acha certo — basta entrevistar qualquer criminoso que se preze para ver ele se auto-inocentar de qualquer culpa. E mesmo quando o pecador assume o pecado, ele acha que está certo em admiti-lo. Ainda estou pra ver alguém que faça alguma coisa que não está certa sem nenhuma justificativa, sem defender uma ética labiríntica, sem dizer que fez porque quis — pois fazer o que se quer é considerado certo. Se alguém dissesse que fez algo errado por um motivo errado e que desconfia estar errado de estar contando tudo, possivelmente seria tachado de louco — embora os loucos sejam justamente aqueles que parecem mais certos de si.
E, paradoxalmente, mesmo com esse mania toda de estarmos certos o tempo inteiro, a gente comete mais erros do que seria aceitável. Pelo menos é essa a impressão que dá já que a gente passa muito tempo da nossa vida tentando consertar erros, fazer as coisas direito. Esses dias me peguei querendo fazer tudo direitinho, com vontade de tornar-me um ser humano exemplar, um homem distinto, trabalhador, responsável, gentil, fiel, atencioso, cumpridor dos deveres e das promessas. Fiquei imaginando como teria sido minha vida se eu tivesse me proposto a isso — a ser certinho — mais cedo. E a conclusão a que cheguei é que, se eu tivesse sido mais certinho do que já fui, eu não teria tido vida.
Ou talvez eu esteja apenas doente e, à moda de Alberto Caeiro, pensando o oposto do que pensaria se estivesse são, mas me ocorreu que viver a vida mesmo, a vida vivida, só errando. Não só esses errinhos morais bestas, mas todos os erros possíveis. Errar na alimentação, na educação, no relacionamento, no trabalho... Errar feio até perder a vergonha, até deixar cair a máscara da hipocrisia de que somos bons, de que somos inteligentes, de que sabemos o que estamos fazendo. Não, não sabemos. Nenhuma criança sabe o que está fazendo quando está brincando, e é isso que nós estamos fazendo aqui: brincando. De tanto brincar, a criança acaba acertando, mas não com empáfia. A criança, de tanto errar, acerta com alegria. O parâmetro está bem no meio do nosso peito: um músculo batendo animado, leve, feliz. Certo ou errado, é o coração que diz.
Qual o erro que você cometeu hoje? Eu cometi o erro de escrever duas crônicas — cada uma mais errada que a outra. E o dia está apenas começando...
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sábado, 7 de novembro de 2009
TEMPO DE PAZ [Debora Bottcher]
Daí, nas tardes quentes de novembro, quando o sol arde calmo e claro, nós andaríamos sobre a areia branca da praia, de mãos dadas, calças curtas e pés descalços, roçando as ondas, juntando conchas e estrelas-do-mar para selar um tempo encantado de paz.
Bem perto das rochas, encontraríamos uma cigana, olhos brilhantes e cabelos negros, búzios sobre um xale vermelho estendido, que leria nosso destino: "Felicidade pra Sempre".
Percorrendo o caminho de volta, sorriso nos lábios e alegria na alma, o silêncio seria quebrado apenas pelo vaivém das ondas. Nenhuma palavra precisaria ser dita.
Na varanda da casa, ao pé do mar, nós nos sentaríamos no banco de madeira rústica, quietos e cúmplices, para namorar a noite enluarada invadindo o dia. Mais um dia — e nós juntos mais uma vez...
Mais tarde, uma fogueira iluminaria nossos rostos, assando peixe, pão e batata. Vinho branco. Nada mais.
E muito mais tarde ainda, sob a lua iluminada e o mar azul marinho, nós nos amaríamos na areia branca, de um jeito doce e terno, no silêncio da brisa, fundindo corpo e sentimento debaixo do manto da noite.
E quando amanhecesse, estaríamos um nos braços do outro, recebendo um novo dia nas mãos para escrever uma história que, anos depois, seria lembrada como um sonho...
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
O QUINTO DIA >> Leonardo Marona
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009
COISAS GRANDIOSAS >> Kika Coutinho
Eu nunca fiz, na vida, coisas grandiosas. Nem pro bem, nem pro mal. Não influenciei muito a vida de ninguém, não salvei alguém da morte, nunca cruzei com um provável suicida que deixou de pular da ponte por minha causa. E também nunca assassinei ninguém, nem bicho – se desconsiderarmos os insetos, de forma geral.
Nunca me aconteceu de encontrar uma criança abandonada na beirada do lago e salvar a vida dela.
Nunca salvei um gatinho doente nem mesmo adotei um cachorro que fora atropelado na estrada. Não. Nada.
Quando eu era criança salvei um pintinho que eu tinha, de ser pisado pelo meu irmão. Talvez esse tenha sido meu ato maior. Também aprovei e rejeitei gente para algumas vagas, o que pode ser bastante importante. Demitir ou admitir alguém foram as minhas atitudes mais impactantes na vida alheia.
Tudo bem, dei alguns conselhos que foram importantes, indiquei gente pra morar com outro alguém, apresentei casais que se apaixonaram, essas foram, em geral, as diferenças que fiz na vida dos outros.
Minha colaboração com o mundo consiste basicamente em jogar lixo no lixo, tentar fechar a torneira quando escovo os dentes e prezar pra escolher um governante mais ou menos bom com o meu voto. E só. Nem reciclar lixo eu reciclo, que vexame.
Isso significa que, até agora, minha existência foi boa, justa, valeu a pena sim, mas, venhamos e convenhamos, não farão nenhum documentário a meu respeito do tipo “That is It” do Michael Jackson, que só vai passar por duas semanas.
Não. De mim ficariam algumas recordações, saudades, lembranças boas, esses textos que deixo por aqui e pronto. Estava bom assim, não me causava sofrimento e eu nem tinha parado pra pensar nisso até algum tempo atrás, uns 8 ou 7 meses atrás, quando, então, me vi grávida.
De repente, eu, que nunca fiz coisas grandiosas, vejo-me gerando uma vida, uma vida inteira, que pode ser banal ou não, pode ser longa e linda ou normal, ou sofrida, enfim. Eu, que me empenhava em ajudar os pobres, me achava gentil com o universo por segurar o elevador pra quem vinha vindo, e por pagar meus impostos em dia, descobri que isso tudo é bobagem. Bobagem. Bullshit, como dizem os gringos. Importante mesmo, importante a valer, é ficar grávida. Continuar a humanidade, continuar a espécie, continuar um mundo que, vamos combinar, não tá lá essas coisas de continuar.
Mas, se depender de mim, ele continuará. Se depender de nós duas, que somos eu e a minha filha, o mundo já não vai acabar, já não vai pifar, já não vai ficar vazio. Porque eu estou grávida e, daqui a 80 anos, mesmo quando eu não estiver aqui, quando talvez o planeta estiver superaquecido, quando os juros tiverem chegado na estratosfera, quando o caos estiver ainda mais caótico, vai ter gente aqui. Vai ter a minha filha, e os filhos da minha filha. Porque eu estou grávida, e isso é o que há de mais grandioso no mundo...
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Mais crônicas de Ana Coutinho, Kika Coutinho
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
SENTINDO SEM SENTIDO >> Carla Dias >>
Pôr-do-sol em São Thomé das Letras por Elder Pratesacordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido
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