quinta-feira, 12 de novembro de 2009

A TOALHA >> Kika Coutinho

Era uma tarde de verão e, talvez por isso, havia tanta gente na piscina da academia. Quando a aula acabou, o vestiário ficou lotado de mulheres, a sua maioria muito jovem, lutando por um chuveiro à sombra.

Para guardar o meu lugar, tratei de pendurar a minha toalha no primeiro chuveiro que vi e, só aí, fui buscar meu shampoo e afins. Deixei a mochila da academia no armário, e voltei ao chuveiro reservado. Estava tudo normal na minha cabeça, um banho quentinho, um vestiário cheio e eu sempre meio atrasada pra alguma coisa que nem lembro o que era. Já estava do lado de fora, me secando, quando notei a pequena confusão. Uma menina, adolescente pra adulta, dando um piti porque tinha sumido a toalha dela. “Ai, que gente estressada”, eu pensei, secando o cabelo e assistindo à confusão. A menina falava sem parar, que tinha deixado a toalha dela — azul — pendurada no chuveiro, foi na sauna um minutinho e, quando voltou, não estava mais lá, a toalha, e ela precisava tomar banho, e como ia fazer, e que absurdo uma academia daquele nível com as toalhas desaparecendo, enfim. Ela tava tão nervosa que nem falava o plural direito. Era uma tal de “uma acadimia cara dessas e as toalha tudo desaparecendo?!” que eu quase fui lá, falar pra ela: “Amiga, uma acadimia cara dessas e tu não me sabe nem falar os plural direito, mulé?!”. Mas não falei nada, me secava pensando que absurdo aquele daquela nega guardar o chuveiro enquanto ficava na sauna, daqui a pouco iam vender os lugares, ia ter guardador de chuveiro igual vaga na rua, que horror, quem mandou ela se achar espertalhona? Bem feito, se ferrou.

Eu já estava quase no fim, secando entre os dedos dos pés, parcialmente vestida, quando, de repente, vi que num chuveiro vazio, tinha uma toalha pendurada, igualzinha à minha. Que engraçado — pensei. Olhei melhor e vi as letras “NO” bordadas na toalha. Cheguei mais perto, e lá estava bordado em letras grandes: BRUNO. A toalha que era igualzinha à minha tinha o nome do meu marido bordado nela, que coisa né? Eu ainda estava tranqüila quando resolvi ver a toalha melhor, de perto e, num susto, constatei que aquela toalha ali, seca, pendurada no chuveiro, era a minha mesmo. Mas, então, por que eu estava me secando com aquela outra toalha que, na verdade era... Azul? Ai, meu Jesus, não acreditei. Eu entrei no chuveiro que a menina tinha reservado pra ela, peguei a toalha dela e, o pior, me sequei todinha com esse trapo que eu nem sei onde foi que ela pôs... Tive um instante de pânico. Pensei em jogar dentro de um armário, fechar e sair correndo, rápido, rápido, eu tinha que ser rápida, já estava chegando no armário, quando... “ACHEI!” Que voz estridente tinha aquela mocinha. O vestiário todo parou e olhou para mim, que paralisei por segundos. Eu estava com a toalha dela na minha mão, mirada para o armário, um pé de havaiana, o outro vazio, a calça posta e a blusa só enfiada no pescoço, uma situação humilhante. Fui virando, assim, devagar, tentando ganhar algum tempo: “É... É... é sua?”, falei, sem jeito, baixo — quase sussurrando. Ela correu na minha direção e arrancou da minha mão, emendando: “Você usou, está molhada!” Mas o que essa guria tava pensando? Claro que usei ué, eu estava molhada, a toalha seca, no meu chuveiro, usei, oras... “Então, mas, então...’, eu repetia sem cessar, a voz engasgada que não saía, até que tive uma ideia e gritei: “Então cadê a MINHA toalha?!” Quando você não consegue se defender, acuse, é a lei dos fracos, mas eu era fracote mesmo ali e só queria me salvar daquele bando de abutres que me olhavam, fuzilando. Alguma estraga-prazer, sem noção, logo mostrou o chuveiro vazio:

— Não é aquela a sua?

— Aquela... Aquela está escrito Bruno! — eu falei, muito brava, porque achei que estava intimidando a multidão com a minha voz que resolvera ficar firme...

— E você não conhece nenhum Bruno?

— CONHEÇO! — gritei, vendo que estava tudo perdido. Eu estava perdida, socorro, como fazia pra sair dali, simplesmente?

Ficou um silêncio no lugar e eu, tentando abotoar a minha calça, fui andando com um chinelo só até o chuveiro vazio, peguei a toalha seca e entreguei para a menina, determinada:

— Então você usa essa, que tá seca, e leva também essa, molhada. E pronto, ué... — Falei como se fosse óbvio, como se eu fosse a chefa dela, de forma que ela não reagiu nem bem nem mal, ficou calada, segurando as duas toalhas nas mãos. Meu Deus, a dela era azul e a minha branca, como eu não notara?

Voltei ao meu lugar, achei a outra havaiana e liguei o secador, pra fazer algum barulho e disfarçar que as minhas mãos tremiam. Logo, outra menina ligou outro secador, outra outro, e a vida foi voltando ao normal. Eu suava em bicas tentando puxar a blusa pra baixo, no minuto seguinte.

Não calcei o tênis, não sequei direito o cabelo e estava pensando numa forma de pedir a minha toalha de volta quando notei que a menina, quase sádica, secava atrás da orelha bem com a letra U, do bordado feito com tanto carinho. “Credo, vai ver que ela estava toda encardida, eu é que não quero meu marido com a urucubaca dessa daí”, pensei saindo de lá, dando a toalha por perdida, e ainda pisando firme, pra manter minha frágil pose de má...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

NO ESCURO > Carla Dias >>

Passamos, naturalmente, porém nem sempre com a graça necessária, pelos revezes da vida moderna. Da velocidade com que produzimos facilidades ao susto que tomamos ao nos darmos conta de que ontem foi janeiro e hoje estamos em novembro. O tempo e as conquistas se misturam.

Ontem saí do trabalho e em vinte minutos estava em casa. Deu tempo de comer alguma coisa e assistir ao esquisito episódio de um dos meus seriados “quase” preferidos. Na minha lista de afazeres da noite de terça, espremiam-se vários isso e aquilo. À noite é quando coloco a minha vida pessoal em dia, o que inclui lavar, às vezes passar, limpar, ouvir música, ler, escrever... Sonhar... Fazer nada.

O apagão de ontem, que chegou a tantos estados se achando, mostrou-me como ando desarmada no quesito “fazer o quê?” Explico...

Depois de assistir ao tal seriado, minha lista dizia para eu começar a leitura de um dos livros sobre televisão e cinema que um amigo me emprestou. Também estou com dois filmes emprestados e um deles tinha de ser assistido, afinal, são livros e filmes emprestados e têm de ser devolvidos. Também precisava, nem que fosse por mais uma horinha, trabalhar em um site que estou construindo. Isso, de acordo com aquela listinha, me ajudaria a resolver pendências com direito a aprendizado e prazer.

Mas aconteceu o apagão... Primeiro a tevê apagou de vez, mas a lâmpada do corredor, que estava acesa, liberava uma luzinha tênue, deixando o lugar com cara de boate. Obviamente, recorri às velas, agradecendo por passar por essa escuridão em casa.

Claro que à luz de velas é possível se ler livros, isso sem contar que notebook tem bateria, e por algum tempo poderia trabalhar no site e até começar a assistir um dos filmes. Se quisesse música, o celular me proveria com estações de rádio ou o mp3 player com a seleção da vez.

Não fosse a correria e, assumo, a mania de deixar a mim pra depois, seria fácil ler o livro à luz de velas. Mas preciso de lentes novas para os óculos e ficar doze horas olhos nos olhos com a tela do computador já fragilizou minha capacidade de curtir essa versão romântica do livro antes de dormir à luz de velas. Senti uma falta da lâmpada acesa...

Sem conseguir ler um livro, resolvi trabalhar no site... E logo que liguei o computador fiquei brava comigo mesma por não ter carregado a bateria. Tinha só uns minutinhos de lambuja. Desliguei o dito e peguei o celular... Mas claro que não tinha rádio pra tocar pra mim. Então, recorri ao bom e velho mp3 player e descobri, de vez, que preciso prestar atenção no que não ando fazendo, pois a pilha já era.

Claro que, assim como a maioria de nós, vivo na certeza de que o que temos é para sempre. Mesmo tendo ciência de que essa é uma certeza provisória. Coloco nas mãos das facilidades – muito bem-vindas, obviamente – a maioria das ferramentas para meu lazer, para meu prazer e para as minhas necessidades.

Fiquei olhando pela janela, a correria de quem se sentia medroso debaixo de tanta escuridão. E sem ter o que fazer, fui me deitar, mas não contando com virar do lado e dormir, já que estou na fase da insônia. Fiquei olhando pro teto, pensando na vida, escutando os barulhos vindos do mercado em frente de casa, que continuava na ativa, pois lá tinha gerador.

Poetizei a existência de um gerador na minha área de serviço...

E cantarolei algumas músicas, parte delas, na verdade, porque raramente decoro letra... Ou poema, ou o que seja. Sou péssima decoradora: de casa e de textos diversos. Sentindo extremamente perdendo tempo com nada, reconquistei algumas lembranças, como a de quando minha avó contava histórias em dias de escuridão como esta que nos pregou uma peça numa terça-feira. Ou minha irmã cantando, na falta da tevê e do rádio. Tias contando histórias, ora verdadeiras e ora inventadas. E o chá mate acompanhado de bolinho doce de minha mãe, eles que quase sempre apareciam com as faltas da companhia de energia.

Continuo com a lista gritando o que devo fazer, mas tudo bem. Vou fazendo aos poucos, como dá e como posso, de acordo com o que sinto, e com o que a vida permite. Sempre à mercê da companhia de luz, de água, de internet, de telefonia, de ônibus...

www.carladias.com

Não dá pra deixar passar como se hoje fosse dia de apagão:


terça-feira, 10 de novembro de 2009

O MAR E OS MINEIROS: A PROVA QUE FALTAVA
>> Felipe Peixoto Braga Netto

"O mar, meu filho, é uma espécie de saudade..."
Guimarães Rosa

Não haverá estudo decente sobre a alma mineira que exclua o mar. O mar, paradoxalmente, é algo mineiro. É algo que participa da psicologia de Minas. Não, claro, no dia-a-dia dos mineiros. Mas nos desejos distantes traduzidos naquele leve desabafo: "ah, se eu estivesse..."

Achei engraçada uma publicidade que vi tempos atrás: belas fotos de lugares típicos de Belo Horizonte. Só que atrás de todos eles havia, para espanto e prazer, o mar. Foi uma vingança divertida contra a natureza.

O leitor já presenciou um encontro do mineiro com o mar? Eu já. Abandona-se tudo: roupas pelo caminho, carro na calçada, mãe no hospital. Tudo passa, na lógica sedenta de sal, a ser secundário e pouco importante frente às azuis possibilidades marítimas.

O mineiro, conformado porque é o jeito, agora deu para zombar do mar. Li numa camiseta, dia desses, a seguinte frase: "Eu tenho pena do mar porque ele não banha Minas". Eu também tenho. E também achei simpática a brincadeira. É uma forma de dizer: "Tudo bem, você não me quer, mas não sabe o que está perdendo"... Soube depois que a ideia é antiga, lá do século dezenove. Já em 1891, Otávio Ottoni dizia em canção: "O mar suspira porque está longe de Minas". Será? Será Minas, velho mar, a causa dos teus suspiros?

Mas é fato que o mineiro se trai ao falar do mar. Logo ele, tão reservado e contido, se desmancha em excessos, revela saudade. Paulo Mendes Campos diagnosticou: "O mineiro é um marujo ao qual retiraram o mar". Maldade com o marujo mineiro. Mas lhe fez bem. Essa combinação de montanhas fez desse povo uma coisa única, dignamente bela. Talvez por isso o poeta, certa vez, tenha dito: "O mar de Minas não é no mar. / O mar de Minas é no céu, / pro mundo olhar pra cima e navegar / sem nunca ter um porto onde chegar."

Por que falo disso hoje? Por isso...

Eu vi, eu vi no sábado passado, 7 de novembro de 2009. Sabe esses programas de televisão que passam no final de semana e em que a família sorteada ganha casa nova, prêmios incríveis, passa por uma transformação notável? Pois estava lá uma humilde família mineira. A mãe, pedreira, e os cinco filhos. Além de um tio dos meninos.

Resumo do diálogo:

— Vocês ganharam uma casa nova toda mobiliada!

Reação da família: — "Êêê (baixinho).

— Vocês ganharam um carro e duas motos!

Reação da família: — Êêê (baixinho).

— Vocês ganharam uma conta corrente com trinta mil reais.

Reação da família: — Êêê (baixinho).

— Vocês ganharam uma viagem para conhecer o mar!

Reação da família: pulos, gritos, explosão de lágrimas dramáticas e muitos abraços!

Juro que não é piada. Eu minto sim, mas só às vezes.

domingo, 8 de novembro de 2009

SONHOS TORTOS >> Eduardo Loureiro Jr.

Héctor Sánchez - Flickr.com

Só pra vocês terem uma ideia...

Essa semana sonhei que meu time ganhava de 3 a 0, três golaços, um deles do meio-de-campo. Até me espantei, porque não sou muito de sonhar imagens, sonho mais sentimentos. Se sonho beijando, não vejo a boca, apenas tenho a sensação do beijo. Então eu podia ter sonhado apenas com o sentimento bom de meu time ter ganho, de goleada, e com três golaços. Mas não, sonhei as imagens de cada gol, com direito a replay, e acordei animado, ansioso pra ver o resultado do jogo a que eu não assisti porque fui dormir cedo na noite anterior. Para meu desencanto, o portal de notícias indicava o placar de 1 a 1. Mas, para que eu não pensasse que meu sonho tinha sido inteiramente absurdo, a manchete completa era assim: "São Paulo lidera de novo: 1 a 1 com 3 expulsos". Eu sonhei três golaços enquanto a realidade apresentou três expulsões. Isso é que é sonhar torto!

Minha família, principalmente as mulheres, costumam ter sonhos premonitórios. Minha avó e uma de minhas tias já ganharam no jogo-do-bicho devido a sonhos. Minha mãe e uma de minhas irmãs morrem de medo dos sonhos ruins que têm, pois já viram alguns dos seus sonhos bons se realizarem. Comigo é o contrário. De tanto meus sonhos não acontecerem, desisti de pensar neles como premonitórios e passei a considerá-los como uma espécie de passeio ou viagem, que devo aproveitar enquanto acontecem, ao invés de ficar esperando que aconteçam no futuro. "Sonho é feito paixão, feito sorvete, só faz sentido no presente", tenho repetido pra mim mesmo.

Seria assim também com os sonhos acordados, as pequenas fantasias? Temos que aproveitar enquanto não somos interrompidos por alguém, por um telefonema? Não, assim como há pessoas que têm sonos dormidos premonitórios, também deve haver pessoas que sonham acordadas e veem seus sonhos se realizar. A questão é saber se são as mesmas pessoas, se quem sonha e realiza dormindo também sonha e realiza acordado. Quero saber se tenho salvação, se meus sonhos acordados têm mais chance que meus sonhos dormidos. Porque passo grande parte do meu dia sonhando, envolto em devaneios de coisas maravilhosas que me acontecem, de grandes oportunidades, de milagres mirabolantes, de reviravoltas incríveis do destino. E seria bom saber se devo apenas aproveitá-los enquanto duram em meus pensamentos ou se posso ter esperança de vivê-los.

Ou será que também são tortos meus sonhos de vigília? Se três golaços são três expulsões, no diálogo entre o inconsciente e a realidade, de que maneira se tornarão palpáveis o trabalho ideal, o amor ideal, a família ideal, a vida ideal? Serão todos os meus sonhos transformados — e transtornados — na dura realidade de quase todo mundo?

CERTO OU ERRADO? >> Eduardo Loureiro Jr.


Dá pra entender por que somos conhecidos por homo sapiens? Quantos homens, e mulheres, realmente sábios você conhece?

Deveríamos nos chamar homo certus. Porque todos nós sempre achamos que estamos com a razão. Eu escrevendo essas ideias malucas, você lendo (se está gostando, acha certo; se não estiver gostando, acha certo estar criticando), o advogado, o médico, o professor... todo mundo se acha certo. A torcida do Flamengo, e a do Vasco também.

Até quem faz a coisa errada se acha certo — basta entrevistar qualquer criminoso que se preze para ver ele se auto-inocentar de qualquer culpa. E mesmo quando o pecador assume o pecado, ele acha que está certo em admiti-lo. Ainda estou pra ver alguém que faça alguma coisa que não está certa sem nenhuma justificativa, sem defender uma ética labiríntica, sem dizer que fez porque quis — pois  fazer o que se quer é considerado certo. Se alguém dissesse que fez algo errado por um motivo errado e que desconfia estar errado de estar contando tudo, possivelmente seria tachado de louco — embora os loucos sejam justamente aqueles que parecem mais certos de si.

E, paradoxalmente, mesmo com esse mania toda de estarmos certos o tempo inteiro, a gente comete mais erros do que seria aceitável. Pelo menos é essa a impressão que dá já que a gente passa muito tempo da nossa vida tentando consertar erros, fazer as coisas direito. Esses dias me peguei querendo fazer tudo direitinho, com vontade de tornar-me um ser humano exemplar, um homem distinto, trabalhador, responsável, gentil, fiel, atencioso, cumpridor dos deveres e das promessas. Fiquei imaginando como teria sido minha vida se eu tivesse me proposto a isso — a ser certinho — mais cedo. E a conclusão a que cheguei é que, se eu tivesse sido mais certinho do que já fui, eu não teria tido vida.

Ou talvez eu esteja apenas doente e, à moda de Alberto Caeiro, pensando o oposto do que pensaria se estivesse são, mas me ocorreu que viver a vida mesmo, a vida vivida, só errando. Não só esses errinhos morais bestas, mas todos os erros possíveis. Errar na alimentação, na educação, no relacionamento, no trabalho... Errar feio até perder a vergonha, até deixar cair a máscara da hipocrisia de que somos bons, de que somos inteligentes, de que sabemos o que estamos fazendo. Não, não sabemos. Nenhuma criança sabe o que está fazendo quando está brincando, e é isso que nós estamos fazendo aqui: brincando. De tanto brincar, a criança acaba acertando, mas não com empáfia. A criança, de tanto errar, acerta com alegria. O parâmetro está bem no meio do nosso peito: um músculo batendo animado, leve, feliz. Certo ou errado, é o coração que diz.

Qual o erro que você cometeu hoje? Eu cometi o erro de escrever duas crônicas — cada uma mais errada que a outra. E o dia está apenas começando...

sábado, 7 de novembro de 2009

TEMPO DE PAZ [Debora Bottcher]

Daí, nas tardes quentes de novembro, quando o sol arde calmo e claro, nós andaríamos sobre a areia branca da praia, de mãos dadas, calças curtas e pés descalços, roçando as ondas, juntando conchas e estrelas-do-mar para selar um tempo encantado de paz.

Bem perto das rochas, encontraríamos uma cigana, olhos brilhantes e cabelos negros, búzios sobre um xale vermelho estendido, que leria nosso destino: "Felicidade pra Sempre".

Percorrendo o caminho de volta, sorriso nos lábios e alegria na alma, o silêncio seria quebrado apenas pelo vaivém das ondas. Nenhuma palavra precisaria ser dita.

Na varanda da casa, ao pé do mar, nós nos sentaríamos no banco de madeira rústica, quietos e cúmplices, para namorar a noite enluarada invadindo o dia. Mais um dia — e nós juntos mais uma vez...

Mais tarde, uma fogueira iluminaria nossos rostos, assando peixe, pão e batata. Vinho branco. Nada mais.

E muito mais tarde ainda, sob a lua iluminada e o mar azul marinho, nós nos amaríamos na areia branca, de um jeito doce e terno, no silêncio da brisa, fundindo corpo e sentimento debaixo do manto da noite.

E quando amanhecesse, estaríamos um nos braços do outro, recebendo um novo dia nas mãos para escrever uma história que, anos depois, seria lembrada como um sonho...

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O QUINTO DIA >> Leonardo Marona

Sobre o que for carregado, ser sobre o que fosse nada, rir e chorar desacordado, como o filho que não nasceu, olhar mais um tempo, negar o sórdido, esperar pelo vento, abraçar o sórdido, já que o vento não veio, pensar em cactos sedentos de areia, pensar em como os cactos são como nós mesmos, metáforas repartidas com uísque nacional, escutar a manhã de Grieg num antigo desenho animado, fazer carinho no próprio carro, uma charrete enguiçada, pensando numa antiga namorada, que desligou o telefone quando quase, sem ser convincente, você disse que a amava, e não somos convincentes, afinal mas precisamos, e duramos uma noite, e rimos para cima para que tudo escorra pelo rosto, ouvimos quem sabe os sons surdos dos banheiros públicos, uma certa ternura pelas meninas da Prado Júnior, sem conhecê-las ou falar de futebol para as meninas bocejarem, ser barbado e não ter idade, pensar em Ney Matogrosso com uma faca na Pizzaria Guanabara atrás do Cazuza, pensar naquela velha letra de música, de que muitos se envergonham, “os meus amigos todos”, “i remember u well”, “u told me again”, tonight i’m Kris Kristofferson, babe, gimme a head like nobody before, e as manhãs de abril em junho, a tua imagem congelada na porta do labirinto ou no ímã da geladeira, sou eu ali desaguando no teu ombro, desaguando feito criança sem mimo, fazendo xixi na cama sem poesia, despetalado no mal-me-quer, sublinhando frases em livros de amor: “o amor será dar de presente um ao outro a própria solidão?”, sou eu então não agüentando e escondendo velhos pactos debaixo do braço, a saudade que sinto quando estamos juntos e eu vejo nos teus olhos os restos do meu sorriso morto, sou eu enfim desaguando, é a estaca dos gestos, o quarto com a morrinha de uma amizade antiga feita há minutos para sempre sós, sou eu envergonhado sem ser músico te falando sobre a dificuldade de se fazer uma canção, uma cidade bonita finalmente, assim, sem música, no silêncio compassado de uma lembrança impressionista, uma vergonha bonita afinal, porque a cidade que sempre é feia de repente ficou bonita, de bochechas vermelhas, num risco de céu o avião que passa dizendo que os homens e mulheres vírgula, sou eu envergonhado pedindo perdão a todos os poetas que estavam ali quando não virei a cabeça, e antes de desligar ela disse sem me olhar nos olhos, porque afinal isso seria banal e óbvio, mas ela disse, ela disse e parecia uma frase já dita em algum lugar ainda pulsante, uma frase repetida de tantas despedidas sem lenço, de tantos abraços pela metade, de tantos socos na parede, coceiras incontroláveis, tremedeiras lúcidas, sim ela disse, ela disse eu vou embora, mas antes ela disse, ela disse eu não te amo nem você a mim, e ela disse isso sem olhar, porque olhar corrompe, ela disse você sabe falar, você fala sem parar, você fala amor amor amor amor, você chama o que te mata, você chegou atrasado, babe, você não sabe fumar cigarro kerouacamente, dias dos namorados e eu aqui pensando num antigo tema de Paganini, pensando no que me fez chorar estranhas lágrimas cor de sépia, pensando nela dizendo: “você precisa desesperadamente de amor mas não ama ninguém”, mas há rosas vermelhas sobre a mesa, há um livro que nunca foi lido, aberto na página exata sobre a cama desfeita, há ainda o que serve para inventarmos presságios de aproximação com as pausas marcantes no fim do abraço que hesita, do beijo sonoro plágio de Sergio Sampaio dizendo: não ligue que a morte é certa, não chore que a morte é certa.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

COISAS GRANDIOSAS >> Kika Coutinho

Eu nunca fiz, na vida, coisas grandiosas. Nem pro bem, nem pro mal. Não influenciei muito a vida de ninguém, não salvei alguém da morte, nunca cruzei com um provável suicida que deixou de pular da ponte por minha causa. E também nunca assassinei ninguém, nem bicho – se desconsiderarmos os insetos, de forma geral.

Nunca me aconteceu de encontrar uma criança abandonada na beirada do lago e salvar a vida dela.
Nunca salvei um gatinho doente nem mesmo adotei um cachorro que fora atropelado na estrada. Não. Nada.

Quando eu era criança salvei um pintinho que eu tinha, de ser pisado pelo meu irmão. Talvez esse tenha sido meu ato maior. Também aprovei e rejeitei gente para algumas vagas, o que pode ser bastante importante. Demitir ou admitir alguém foram as minhas atitudes mais impactantes na vida alheia.

Tudo bem, dei alguns conselhos que foram importantes, indiquei gente pra morar com outro alguém, apresentei casais que se apaixonaram, essas foram, em geral, as diferenças que fiz na vida dos outros.
Minha colaboração com o mundo consiste basicamente em jogar lixo no lixo, tentar fechar a torneira quando escovo os dentes e prezar pra escolher um governante mais ou menos bom com o meu voto. E só. Nem reciclar lixo eu reciclo, que vexame.

Isso significa que, até agora, minha existência foi boa, justa, valeu a pena sim, mas, venhamos e convenhamos, não farão nenhum documentário a meu respeito do tipo “That is It” do Michael Jackson, que só vai passar por duas semanas.

Não. De mim ficariam algumas recordações, saudades, lembranças boas, esses textos que deixo por aqui e pronto. Estava bom assim, não me causava sofrimento e eu nem tinha parado pra pensar nisso até algum tempo atrás, uns 8 ou 7 meses atrás, quando, então, me vi grávida.

De repente, eu, que nunca fiz coisas grandiosas, vejo-me gerando uma vida, uma vida inteira, que pode ser banal ou não, pode ser longa e linda ou normal, ou sofrida, enfim. Eu, que me empenhava em ajudar os pobres, me achava gentil com o universo por segurar o elevador pra quem vinha vindo, e por pagar meus impostos em dia, descobri que isso tudo é bobagem. Bobagem. Bullshit, como dizem os gringos. Importante mesmo, importante a valer, é ficar grávida. Continuar a humanidade, continuar a espécie, continuar um mundo que, vamos combinar, não tá lá essas coisas de continuar.

Mas, se depender de mim, ele continuará. Se depender de nós duas, que somos eu e a minha filha, o mundo já não vai acabar, já não vai pifar, já não vai ficar vazio. Porque eu estou grávida e, daqui a 80 anos, mesmo quando eu não estiver aqui, quando talvez o planeta estiver superaquecido, quando os juros tiverem chegado na estratosfera, quando o caos estiver ainda mais caótico, vai ter gente aqui. Vai ter a minha filha, e os filhos da minha filha. Porque eu estou grávida, e isso é o que há de mais grandioso no mundo...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

SENTINDO SEM SENTIDO >> Carla Dias >>

São Paulo

Um calor danado em São Paulo, meus caros. Apesar de preferir os dias de chuva abarcando a metrópole acompanhada daquele ventinho frio, também me deixa feliz a forma como o sol se despeja nesse lugar. Mas esse sol que arde quando nos toca pede balanço de ondas ou quedas d’água. Dentro dos escritórios somos enganados pelo ar-condicionado, mas caímos na real quando temos de dormir em nossas casas.

Esse dia azul me fez lembrar alguns dias que passei em São Thomé das Letras, em Minas Gerais. Lá o azul é ainda mais azul e o céu parece mais largo, mostrando até a lua como se ela estivesse pendurada na janela, feito aqueles célebres mensageiros dos ventos. Na verdade, a primeira vez que estive lá, na primavera de 1995, fiquei surpresa ao ver que as pessoas se reuniam numa parte da cidade apenas para observar a lua, assim como há um lugar perfeito para se presenciar o pôr-do-sol.

Pôr-do-sol em São Thomé das Letras por Elder Prates


Foi em São Thomé que cliquei o jardim de pedra da pousada, foto que está na capa do meu livro Azul.



Jardim de Pedra da Pousada Paraíso - São Thomé das Letras por Carla Dias

Esses dias de estar fora do meu cenário moram longe. Há muito tempo não saio das ruas asfaltadas ou das facilidades paulistanas, oferecidas pelo perfil 24 horas da cidade. E mesmo olhando lua e sol pela janela do meu apartamento, não é o mesmo de o olhar roçar a imensidão despida de prédios. Também não provoca a delícia de simplesmente parar para se despedir do sol e receber a lua. Não dá pra fazer isso com uma jornada de trabalho que termina depois das 20h.

Não se enganem... Sou urbana. Gosto de São Paulo e aprecio o que ela oferece. Adoro caminhar pela cidade em finais de semana, principalmente quando tem algum feriado colado a ele. Tudo bem que, ultimamente, tenho ficado mais em casa do que bandeado pelas ruas de Sampa. Ando olhando a cidade pela janela.

Mas voltando às lembranças de São Thomé... Quando estive lá pela terceira e última vez, em 1999, atrevi-me e encarei um medo que mantenho e se opõe à profunda fascinação que tenho pelas águas. Eu e minha tia, que me acompanhou nessa viagem, fomos cedinho para a cachoeira Eubiose. Não havia ninguém por perto, o que ajudou, porque um dos meus temores era me dar mal em público (quem nunca teve esse medo é sortudo... ou desencanado mesmo!). Namorei aquela cachoeira durante um bom tempo, até que decidi saber como era a sensação de ficar debaixo dela. Não era uma cachoeira enorme, mas suas águas tinham força suficiente para desequilibrar uma pessoa. E eu já falei sobre o meu medo da água?


Eubiose - São Thomé das Letras por Maura Pires

Quando moleca, e ainda vizinha da Represa Billings, meu pai decidiu que eu e minha irmã deveríamos aprender a nadar. Ele segurou nossas mãos, uma filha de cada lado, e nos enfiou na água, segurando por algum tempo. Não preciso dizer que nem eu, tampouco ela, nunca aprendemos a nadar, não é?

Mora aí o antagonismo que impera em parte da minha existência. O meu fascínio pela água é irrefutável, mas eu a temo com a mesma intensidade.

Lá na Eubiose, decidi que era hora de tomar um bom banho de cachoeira. Já tinha ficado debaixo da fina linha da cachoeira do Vale das Borboletas, um lugar de uma exuberância mística. Mas ali a água não tinha tanta força, ao menos quando estive lá. Na Eubiose ela caía com tanta força que o som que sua queda provocava daria um bom rock’n roll. Mas que fique registrado que ela não é profunda. Meu medo não caberia nos medos de muitos de vocês.

Vale das Borboletas - São Thomé das Letras

A sensação de ficar debaixo da queda d’água, e conseguir me segurar para não correr o risco de cair, foi catártica. A temperatura da água, a força, a limpidez... O medo se transformou em gratidão pelo momento. Na hora, pensei que uma das divindades — que muitos dizem viver em São Thomé — houvesse me pegado pela mão e me apoiado.

O fotógrafo e escritor japonês Masaru Emoto foi responsável por uma experiência em que a água foi submetida ao pensamento humano. Ele alega que as moléculas de água se comportam de forma diferente de acordo com o pensamento ao qual são submetidas. Até onde sei, não há respaldo científico para sua experiência, que foi definida como pseudociência, mas certamente é um tópico interessante. Que a água tem seus mistérios, seus fatos cientificamente comprovados, suas marés, sua poesia ou sua mania de nos fazer poetizá-la, nós sabemos.




Trecho do filme "Quem somos nós"


Comecei essa crônica falando do calor que está aqui na cidade onde vivo há mais de uma década, e pela qual tenho verdadeiro apreço. Aprofundei-me nas nuanças da água, meus medos e afetos por ela. Passei por Minas Gerais, pela espirituosa São Thomé das Letras, uma cidade que cultivou em mim a curiosidade pelas suas lendas e sua beleza.

Finalizo essa crônica com um pensamento que não estava presente quando comecei a escrevê-la, mas que me bate tão forte que se torna impossível não mencioná-lo. Um pensamento que não é meu, mas que peguei emprestado do Paulo Leminski:

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido


Agora não faço sentido... Talvez mais tarde, quem sabe? Quando as imagens, os cheiros, as lembranças saírem para passear e me deixarem a sós comigo.


Eu ouvindo música do vento em São Thomé das Letras